Não podemos resolver a questão da desigualdade social e racial do mundo, mas temos a oportunidade de, em pequenos gestos, reconhecer no outro a extensão de nós mesmos. Uma delas é pela adoção.
A criação e o desenvolvimento de um filho são puramente culturais. Dependem muito mais do carinho dos pais e das influências do meio em que estão inseridos do que de razões biológicas. Os determinantes genéticos, a bem da verdade, servem basicamente para duas coisas: definir doenças potenciais e características físicas.
Se adoto uma criança sã - até mesmo especial, o que de maneira alguma invalida sua capacidade de se desenvolver na sociedade dita "normal" - a única coisa que teria a lamentar seria o fato de o filho adotivo não ser parecido comigo. Mas, honestamente, isso é motivo para alguém se lamentar?
Só em um mundo que privilegia as aparências. Quantos filhos ditos "de sangue" - expressão que só mostra ignorância e visão limitada do ser humano - não são completamente diversos dos pais? E aí não me refiro aos olhos da mesma cor ou à pele do mesmo tom, muito menos se os cabelos são lisos ou cacheados.Muitos filhos de sangue são diariamente largados no próprio lar por pais que não fazem a menor questão de dispensar o amor que lhes seria devido. Se são sangue do meu sangue, devem pensar, herdarão os bons costumes. E os vêem muitas vezes se tornarem adultos sem o menor cuidado em mediar suas relações sociais em bases éticas.
Por isso, antes um filho adotivo com caráter, visão humana, cidadão de bem e amoroso. Aliás, costumam receber mais cuidado e atenção de seus pais de coração e não por acaso se tornam também pessoas mais humildes, carinhosas, compreensivas, enfim, especiais mesmo.
Nascimento é uma delas. Dono de um olhar terno e uma voz que toca a alma profundamente, metade da alma e do sorriso de Milton resolveriam 90% das questões de nosso mundo superficial, competitivo e corrosivo.
Se um dia tiver dois filhos e puder escolher, é certo que ao menos um deles será adotivo. E criarei com o mesmo amor, dedicação e cuidados que o suposto "filho de sangue". Na verdade, sangue só existe um. Vermelho. Como olhos existem para ver igualmente e mãos para sentirem igualmente. Diferente é pensar diferente.
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